Viver pra seduzir: um retrato da sociedade contemporânea

Quando falo em novos comportamentos, sempre gosto de recorrer aos estudos de grandes pensadores da sociedade contemporânea, já que lançam sempre um olhar apurado sobre a realidade em que vivemos.

Enquanto eu estava na Europa neste ultimo mês, onde fui dar aulas a dois grupos de estudantes brasileiros – um dos cursos em Lisboa -, fui visitar as magnificas livrarias da cidade. Estava atrás do ultimo livro do filosofo e sociólogo Gilles Lipovetsky, um dos grandes pensadores da atualidade quando se trata de comportamento.
Lipovetsky é o criador do conceito de hipermodernidade, termo que define a cultura do excesso, do sempre mais, da intensidade, da urgência e do efêmero que caracterizam o estilo de vida do nosso tempo. Crítico do individualismo e da sociedade de consumo, ele lançou este ano o livro Agradar e Tocar: Ensaio Sobre a Sociedade da Sedução. Foi minha leitura de viagem, e trago um pouco dela aqui.
No livro ele aborda varias mudanças que estão acontecendo na sociedade, muito por causa da sedução, que considera ser a maior arma do capitalismo. É importante dizer que ele usa o termo sedução num sentido bem amplo, já que a economia consumista oferece diariamente atrativos que são dominados pelo imperativo de captar o desejo, a atenção e os afetos. A sedução tornou-se a figura suprema do poder nas sociedades democráticas liberais.


Com certeza o desejo de agradar, de mostrar-se, de usar de artifícios para atrair olhares ou conquistar consensos à custa de encenações ou seja a sedução, é antigo como o homem

Muitos rituais foram criados para que a sedução aconteça, como por exemplo, toda uma coreografia de relações e cortejo entre homens e mulheres.
Mas hoje em dia, a sedução tornou-se um imperativo que impregna de uma nova maneira todos os âmbitos da vida individual e coletiva, adquirindo uma importância e um poder nunca vistos. E vai muito além das artimanhas amorosas, deixando para trás o imaginário secular de ser uma fonte de perigos, contra a qual era preciso lutar, reprimir e condenar, como se deduz do sentido original do verbo seduzir, que vem do latim seducere, ou seja, atrair a si, desviar do caminho certo, induzir ao erro.


A sedução passou do domínio do erótico, do sexo, para a economia, para a educação e para a política, para as relações sociais em geral; em tudo há de se provocar a atenção e o desejo

Depois de Platão e depois do judeu-cristianismo, a sedução foi assimilada como estratagema e tornou-se condenável. Para Platão a sedução era o mal, o vício, porque visava enganar. Lipovetsky quis mostrar no livro que isso não é mais do que uma pequena parte da lógica da sedução, propondo um outro modelo, demonstrando que a sedução não é um instrumento do desejo mas que cria o desejo. Sem sedução não há desejo. Reverteu assim o modelo: quando somos seduzidos por qualquer coisa é que sentimos necessidade de agir.
O moralismo deu lugar ao triunfo do desejo, e as pessoas passaram a dar-se o direito de modificar qualquer parte do corpo e coloca-la em cena, de ter e dar prazer fora de qualquer protocolo, ha anos-luz de distância dos rituais de galanteria da sedução clássica. Tornou-se quase um dever na era da aceleração dos contatos, das relações em redes sociais, sempre velozes e imediatas, a sedução tornar-se hiperbólica e rápida, e até uma arma de poder e controle. Vivemos a era da sedução soberana sem precedentes que permeia o território do consumo, da comunicação social, da economia, da educação e da política. Estamos todos dentro de um tempo em que a regra principal é “agradar e tocar”.


O sedutor e encantador mundo das redes sociais também reflete esta nova ordem da sedução

As redes sociais são os meios que mais seduzem as pessoas no mundo, de acordo com Lipovetsky. As pessoas se deslumbram muito com os seguidores, as curtidas e os comentários, fazendo com que a vida real se torne refém da vida virtual. Com o advento das redes sociais estamos vendo o nascimento de um novo narcisismo, o narcisismo social, que busca atingir os outros com fotos e comentários. E ele não é simplesmente estético. As pessoas esperam ser reconhecidas pelas suas redes sociais, tornando, assim, escravas da própria sedução. Elas estão mais egocêntricas e individualistas por causa da sedução do consumo, em que a informação exacerbada transformou o indivíduo e sua forma de observar o mundo em que vive, e tudo aquilo que a sedução do consumo representa.


Obrigada a ser criativa, a reinventar-se continuamente enveredando por caminhos inéditos, a tirânica sedução tornou-se a verdadeira face do poder nas sociedades democráticas liberais, sem que haja reprovação ou que se procure controlá-la. Mas no ensaio de uma influencer em Chernobyl, no local do trágico acidente que matou mais de quatro mil pessoas, a própria sociedade recriminou sua atitude ao ser fotografada seminua lá

E neste mundo virtual os valores pessoais muitas vezes se tornam secundários face à necessidade de chamar a atenção. É preciso lançar sempre alguma novidade, já que poucas coisas conseguem chamar a atenção hoje. Como dizia Freud, a novidade é um ingrediente terrível de prazer. Frequentemente o que nos excita é a novidade. E dai vem a insaciabilidade, a necessidade de fazer novas aquisições. É a novidade que hoje em dia funciona como sedução. Novidade e diversidade. Hoje em dia o que seduz é ter produtos personalizados, e não produtos massificados, standardizados. E o que também caracteriza o trabalho de design e estetização, porque a beleza, o charme, tudo isso vende. Hoje queremos tudo como decoração, ambiente; chamamos designers, arquitetos, cenógrafos às lojas para vender. Há um fenômeno de estetização absoluta da vida.


O uso do virtual suscita o desejo do real. Um bom exemplo são as viagens

Nas redes sociais podemos passar o dia inteiro agradando todo o mundo e criando e vivenciando cenários e discursos muito individualizados. As pessoas conectam-se e elas, mas o que procuram não substitui as relações reais. Nelas é encontrado um tipo de satisfação, mas não toda a satisfação; é mais uma satisfação narcisista. Por exemplo, quando se publica uma boa foto no Instagram, é para que se tenha um retorno, para as pessoas digam que gostam. São pequenas coisas que dão prazer. Mas o filosofo não acredita que o virtual substitua o real. Isso é uma visão clássica das coisas. Ele crê que o uso do virtual suscita o desejo do real. Um bom exemplo são as viagens. Há algumas décadas só os exploradores, os viajantes, os aventureiros viajavam. A maioria das pessoas não tinham qualquer expectativa de conhecer o mundo, não tinham sequer o desejo de o conhecer. Hoje em dia só uma minoria não ambiciona viajar, ver o mundo. E o Instagram contribuiu para isso. Ao vermos as imagens de todos esses lugares, isso contribui para o desejo de ir até lá, e o que fica claro é que a imagem não substitui a coisa em si. Por isso o turismo não para de crescer.