Economia Circular e Sustentabilidade no sistema de Moda

Depois que a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, começou a repetir as roupas que usa em compromissos oficiais, seguida por Kim Kardashiam e Victoria Beckham, parece que as mulheres entenderam que usar a mesma peça mais e mais é inteligente e um forte aliado na formação de um estilo único. Indo além, começam a ver que é mais racional usar a mesma roupa ou calçado ate que não tenham mais condições de uso, pensando na sustentabilidade, ou passa-los adiante seja por doação ou venda, incentivando a circularidade.

Quem ainda não usou um Uber, trabalhou num espaço de co-working ou ainda não ficou hospedado em um local oferecido pelo Airbnb? Os que já o fizeram são os convertidos à Economia Circular.
Os modos de consumo vêm evoluindo mais do que nunca neste novo século. Há alguns anos comprávamos um produto de luxo com a ideia de transmitir para nossos descendentes: um anel para a filha, um relógio para o filho… Mas estamos evoluindo de uma economia de posse para uma economia de uso.
Importante dizer que tivemos três diferentes fases de consumo desde o início do Século 20. Durante um longo período compramos poucas roupas ou sapatos: os mais ricos usavam peças feitos sob medida, seja por uma grande maison, seja por costureiras ou alfaiates e sapateiros. A diferenciação de classes era o único objetivo.
Com o boom do consumo de massa, em meados do século, as classes médias começaram a acumular e depois a comprar mais barato para uma obsolescência programada.
Hoje este modelo ainda predomina, mas começamos a pensar no desperdício, principalmente pelo caos que o lixo vem causando ao meio ambiente. Sob a influência de novos recursos como o uso de peças de segunda mão ou ainda pelo aluguel, que permitem poder variar a experiência de moda acumulando menos, parece ter sido encontrado um caminho para manter o sonho consumista. Assim parece que o sonho não foi prejudicado, mas racionalizado.
Ainda não podemos dizer que este novo modelo de consumo possa salvar o sistema de moda, um dos mais poluentes do mundo.


Kate Middleton usa as mesmas peças variando os acessórios e já esta famosa por repetir mais e mais as mesmas roupas, como exemplo de elegância atemporal

O caos do lixo e resíduos industriais

Com 1,6 milhão de metros quadrados de detritos e 79 mil toneladas de plástico, a grande mancha de lixo do que se formou no Oceano Pacífico tem tamanho equivalente a duas vezes a área da França. O cheiro do plástico quando colonizado por bactérias e algas no mar leva os peixes a confundi-los com alimento e a ingeri-los, introduzindo-os na cadeia alimentar segundo estudo da Universidade da Califórnia e do Aquário da Baía de São Francisco, nos Estados Unidos. A ingestão de plásticos pode ser fatal e leva a uma acumulação de substâncias tóxicas ao longo da cadeia alimentar, quando os predadores se alimentam de presas que ingeriram plásticos. E nós estamos no final desta cadeia alimentar. E não só os peixes, mas também o sal já apresenta resíduos de plástico.
O uso maciço de plásticos é tamanho que os oceanos abrigarão mais detritos plásticos do que peixes em 2050 – informou o Fórum Econômico Mundial de Davos.
Mas o plástico nos oceanos é apenas uma parte do preocupante cenário.
A indústria de vestuário, que gera 53 milhões de toneladas de resíduos de aterros por ano (73% da moda consumida termina a sua vida no aterro), é um dos maiores poluidores do mundo. Além disto, a indústria da moda utiliza-se de energia não renovável, consumo de água altíssimo, produz lixo tóxico, microfibras poluidoras e faz grandes emissões de carbono no ambiente.
Como a população global aumentará em 16% até 2030, haverá pessoas que precisarão se vestir e calçar, ou seja, o que será feito em prol de uma sustentabilidade mais significativa?


Apresentado no evento Parley for the Oceans, apoiado pela ONU, que visa incentivar criativos a usar o lixo oceânico em suas criações e aumentar a conscientização sobre o meio ambiente, o tênis da Adidas foi feito com plástico retirado dos oceanos.

Usar o usado, ou não usar?

Algumas pessoas ainda estão relutantes em comprar peças de segunda mão, principalmente sapatos, mas a proliferação de sites oferecendo produtos usados indica uma mania em ascensão. É também um sinal de que os consumidores estão considerando as compras como um investimento, um capital para gerar lucro. Este seria um caminho para tornar a moda sustentável?
Neste caminho, sites como o Instantluxe.com um dos pioneiros em artigos de couro e relojoaria de segunda mão, e o Vestiaire Collective, confirmam que cada vez mais os usuários têm em mente o valor do que adquirem. Principalmente produtos de grife e marcas de luxo são comprados e depois revendidos muitas vezes após 3 meses de uso, segundo os mesmo sites. Além disto, mercados emergentes costumam consumir os produtos de mercados que já não os classificam como importantes. Por exemplo, na França um produto pode não estar mais interessando aos consumidores, mas o Brasil pode consumi-lo num segundo momento, o que se chama curva de conveniência.
Quem sempre andou na contramão dos sites que não vendem muito os calçados usados, foi o StockX, plataforma originalmente dedicada só a comercializar tênis de segunda mão, mas que depois expandiu seus produtos para comercializar streetwear também. Mas o carro forte tem sido mesmo os tênis em edição limitada de grandes marcas co-assinados por marcas de luxo.
No Brasil, vários sites nesta linha já surgiram, mas trabalham principalmente com peças de luxo, mas a venda de calçados ainda não deslanchou muito bem também.


A Rebag é a plataforma online que só revende bolsas usadas. Tanto o envio das peças como a avaliação correm por conta da empresa

Outra geração

Principalmente o jovem hoje desafia as formas tradicionais do sistema de consumo. Especialistas preveem que a geração Z (nascida com o novo milênio) possui um instinto para a propriedade menos desenvolvido do que as gerações anteriores, embora a sua consciência ambiental precise ser mais desenvolvida. Mas o que mais a distingue é que para ela, o digital é mais real que a realidade. Muito mais racional pensa no uso, por isto interessa-se mais pela economia circular ou colaborativa.
Nos Estados Unidos o site Rent the Runway, oferece para aluguel roupas de grife por um período de 4 ou 8 dias por apenas 10% do preço de varejo delas, por meio de sua plataforma chamada RTR Reserve. Oferece aos clientes um pacote pré-pago e pré-endereçado para devolver a peça e oferece uma taxa de seguro de US $ 5 para proteção contra acidentes. Os preços de aluguel incluem a limpeza a seco e o cuidado das peças de vestuário. Mas o serviço só cresceu mesmo a partir de 2016, quando a empresa lançou o Unlimited, a primeira assinatura da moda que dá às mulheres acesso a roupas e acessórios de grife por uma taxa mensal fixa de US $ 159 por mês, incluindo transporte, limpeza a seco e seguro. Em 2017, a Rent the Runway anunciou uma nova assinatura com preços ainda mais baixos chamada RTR Update. Os clientes selecionam 4 peças e as mantêm por um mês. No final de cada mês, os assinantes podem selecionar quatro novos itens e retornar seus itens anteriores por correio. A assinatura custa US $ 89 por mês com frete, limpeza a seco e seguro incluídos.
Tem mais de 6 milhões de assinantes e cerca de 3200 peças são lavadas por hora. Seus fundadores, vindos da Harvard Business School, procuraram uma alternativa à Fast Fashion e acabaram por se tornar a empresa americana do ramo mais lucrativa. Um dos fatores que mais impulsionaram o crescimento foi o avanço do Instagram. Para a maioria dos usuários é fundamental fotografar um look por semana, ou ate mesmo por dia, como forma de realização pessoal, ou ate mesmo para parecer rico, especialmente se o usuário não é. Alias, esta atividade no Instagram tem alimentado muitos destes sites de aluguel e venda de produtos usamos, muito mais do que a consciência ambiental.
No Brasil se da o mesmo, e muitas empresas nestes moldes tem crescido impulsionadas pelas redes sociais.
Mas este modelo americano tem sido mais difícil de ser aplicado em outros países, como a França, onde a sustentabilidade tem mais valor que a aparência, ou o greeenwashing. Lá, o
Habibliothèque e o Panoply tentam enveredar por este modelo de negocio, mas culturalmente os americanos têm o habito de descartar os produtos com mais facilidade, enquanto que na Europa as pessoas não vivem com esta insatisfação constante.
Outro modelo de negócios gerado pela falta de espaço de armazenamento nos closets nas grandes cidades são as empresas que terceirizam o guarda roupa e a guarda de muitos outros itens, ou seja, armazenam as peças que não são usadas com tanta frequência. A vantagem é que tudo isto também pode ser alugado para outros usuários, gerando renda extra e fazendo o cotidiano muito mais simples.
Parece que o modelo da circularidade dos itens de segunda mão veio para ficar e começa aos poucos transformar o ciclo da moda.


A The Real Real, empresa que migrou da venda online para a loja física no SoHo, em Nova York, vende peças de grife de segunda mão é um sucesso estrondoso

Moda e Sustentabilidade

A Global Fashion Agenda acredita que 75% das empresas de moda tambem melhoraram sua pontuação de sustentabilidade em 2017. A Copenhagen Fashion Summit mostrou que as promessas de sistemas circulares pelas 93 empresas globais participantes, representando 207 marcas, representam apenas 12% da moda global, mas ja prometem deixar de lado as peles naturais, proposta ja adotada por empresas como Gucci, Versace e Michael Kors.
Os produtos autodescritos “sustentáveis” cresceram 139%, os produtos veganos 116%. Também é interessante notar o crescimento no uso de corantes não tóxicos, mas a transparência por parte das indústrias e marcas não está aumentando com rapidez suficiente.

E o que vem primeiro?

O varejo vai esperar os consumidores reclamarem e exigirem sustentabilidade? Pesquisas sugerem que isso não vai acontecer: a pesquisa de insights do consumidor do LIM College mostrou que os Millennials não classificam a sustentabilidade como alta em suas considerações de compra. Eles colocam muito mais ênfase na facilidade de compra, exclusividade de produto, preço e valor e nomes de marcas do que em propriedades sustentáveis. Isso apesar de um grande aumento nas atividades de saúde e bem-estar e pesquisas de dietas baseadas em vegetais.


Victoria Beckham é adepta da repetição de roupas e acessórios, atitude que já inspira seguidoras pelo mundo.

Fast fashion, sustentabilidade e educação do consumidor

A fast fashion não é exatamente compatível com a sustentabilidade, mas este é o setor que mais precisa de foco quando se trata de circularidade na moda. E algumas experiencias têm sido feitas justamente por varejistas nesta área, como os gigantes Zara e H&M. Na linha Join Life da Zara as peças da coleção são feitas de algodão orgânico (o processo utiliza 90% menos de água que o tradicional), lã reciclada e Tencel, um tecido feito da celulose da madeira proveniente de florestas certificadas e responsáveis, reduzindo assim o impacto ambiental. A tecnologia utilizada é a “Green to Wear”, que inclui até o uso de água reutilizada e controle de toda a cadeia produtiva, o que inclui terceirizados, quando são verificadas as condições de trabalho. Ou seja, a moda deve levar em conta o ambiente e o homem.
As coleções da H & M Conscious também são bons exemplos de fast fashion no mercado. Uma delas apresenta o material sustentável BIONIC, um poliéster reciclado feito a partir de resíduos de plástico recolhidos em zonas costeiras. Esta linha é responsável por 5,4% da oferta da marca, com ênfase de 70% no vestuário infantil. Na Zara, a Join Life representa 3,6% de toda a oferta, com uma ênfase de 41% na moda infantil. Esta foi uma das estratégias encontradas para oferecer preços mais razoáveis. Além disto, as crianças têm pele mais sensível a fibras sintéticas. À medida que os pais da geração Millenials vao ficando mais informados sobre isso, o mercado tende a crescer.


Keira Knightley reusou seu vestido de casamento criado pela Chanel em varias ocasiões e de diversas formasI